Minha esposa estava sofrendo intensamente com as dores do parto enquanto aguardávamos a chegada do nosso segundo filho. Desesperados por algum alívio, chamamos a enfermeira. A resposta dela foi apenas:
“Gaman dekinai?”
A palavra gaman era completamente nova para nós, mas, pela reação da enfermeira, percebemos que ela não faria nada. Mais tarde descobrimos que gaman (我慢) significa “suportar o aparentemente insuportável com paciência e dignidade.”
No Japão, o gaman é considerado uma virtude, pois demonstra maturidade e força diante das dificuldades. A ideia é suportar o sofrimento sem reclamar, causando o mínimo de incômodo possível às pessoas ao redor.
Essa característica tão admirada aparece em diversas situações do cotidiano. Os japoneses se comprimem silenciosamente em trens lotados, trabalham jornadas extremamente longas e permanecem em salas de aula sem aquecimento durante o inverno. Quando alguém persevera em um relacionamento difícil, seja em casa, no trabalho ou na escola, está praticando o gaman.
Quem visita o Japão pode observar esse comportamento e concluir, equivocadamente, que os japoneses são pouco assertivos ou não têm iniciativa. Ao fazer isso, porém, deixa de compreender o valor do gaman, um princípio que sustenta grande parte da sociedade japonesa e contribui para seu funcionamento organizado.
Mas o gaman também tem seu lado sombrio.
Ele pode impor uma pressão irrealista para que as pessoas correspondam às expectativas, mesmo à custa de sua saúde física ou emocional. Pode sufocar a expressão individual e impedir a livre troca de ideias, limitando o crescimento pessoal e coletivo. A organização da sociedade japonesa tem um preço.
A perseverança também é exaltada nas Escrituras como uma característica piedosa. Há muito o que admirar no conceito de gaman, mas a perseverança bíblica coloca Deus no centro. Seu objetivo é glorificá-lo por meio de uma resposta cheia de fé, independentemente das circunstâncias.
Embora o gaman promova o objetivo legítimo de preservar a harmonia da comunidade ou da empresa, muitas vezes isso acontece às custas do indivíduo e tende a deixar Deus completamente de lado.
Talvez o maior exemplo bíblico de perseverança seja Jó (Tiago 5.11). Seu testemunho nos mostra alguém que suportou o aparentemente insuportável com paciência e dignidade. A diferença é que seu objetivo final era adorar a Deus por meio de uma resposta marcada pela fé.
Esse, sim, é um exemplo que vale a pena imitar.
Por Mike, missionário da OMF.



